IPv6: “Quanto mais o tempo passar, mais recursos terá que investir”

Faltando apenas dois meses para a fase final do esgotamento dos endereços IPv4 na América Latina e o Caribe, o especialista da Internet, Azael Fernández Alcántara, pesquisador da UNAM do México e moderador doFórum da América Latina do IPv6, adverte sobre a baixa adoção do protocolo IPv6 na região.
Fernández Alcántara aponta que a demora na adoção e implementação do IPv6 irá implicar custos adicionais às organizações da região porque deverão investir maiores recursos quando efetivamente decidirem adotar a última versão do protocolo da Internet.
O moderador do Fórum da América Latina do IPv6 garante que o IPv6 não deve ser visto como “uma coisa opcional ou futura”,mas sim como uma realidade imprescindível.

No último semestre o tráfego no IPv6 aumentou mais de 1% cada 2 meses a nível global. Você atribui esse crescimento a quê?

A que cada vez há mais usuários e dispositivos com IPv6 habilitado por padrão e mais provedores que oferecem conectividade também com IPv6, mas varia de uma região para a outra.
Também porque há cada vez menos endereços IPv4 disponíveis, portanto a melhor opção é o IPv6.
Empresas como a Amazon, Apple, Facebook, Google, LinkedIn e Microsoft anunciaram e deram importantes avanços no suporte de IPv6 de seus produtos.
Ao analisar os dados do Google vemos que o tráfego de IPv6 foi 16,80% emdezembro 2016 versus 10% em dezembro 2015, quase 7% de crescimento em um ano. É um bom indicador de que a cada mês de 2017 poderíamos ter um aumento de 1% na conectividade dos usuários a esta companhia, assim, no final de 2017 chegaria a 25%.

Como é a situação do tráfego no IPv6 na América Latina e o Caribe em relação a esses números globais e, particularmente, se comparado com outras regiões?

Ainda é baixo, embora tenha crescido em alguns países como o Peru e Equador a velocidades equivalentes e até mesmo superiores a outros continentes.

Uma pesquisa realizada por LACNIC e CAF advertia há quase um ano sobre um atraso na adopção do IPv6 na região. A situação mudou desde então? Quais você acha são os fatores que impedem uma maior implementação deste protocolo na América Latina e o Caribe? Que ações deveriam tomar as organizações da região para abranger a implementação global do IPv6?

Não mudou muito ou ainda não dá para notar. Ainda os grandes ISP da região não o oferecem em massa aos usuários finais (coorporativos e público em geral).
As ações são muitas: para começar, considerar o IPv6 como uma coisa não opcional ou a futuro; por exemplo, já nas compras e licitações pedir o seu suporte em pé de igualdade que se fosse IPv4.
Estabelecer diretrizes e políticas para as equipes, aplicativos e serviços; que suportem e se ofereçam com suporte das duas versões; habilitar progressivamente o IPv6, umexemplo é a implementação do Telecentro na Argentina.

Você acha que as empresas são cientes da necessidade de usar o IPv6 ou considera que ainda o vêem como algo distante?

Algumas empresas ou organizações chave, ainda consideram o IPv6 como algo distante porque não podem perceber o retorno do investimento imediato ou a curto prazo, mas não levam em conta que quanto mais tempo passar, mais recursos terão de investir. Também manter duas versões por muito tempo, seria muito mais caro do que deixar funcionando apenas o IPv6.

Os Estados são cientes que devem impulsionar políticas para facilitar aimplementação do IPv6?

Infelizmente a maioria não, apenas alguns. É claro que eles são um fator importante para aumentar a oferta e o mercado de produtos e servicos também com suporte IPv6.

Hoje de 1.717 redes da região, cerca de 1.050 estão anunciando o IPv6, 64% mais do que no ano passado. Esse é um número bom? Por que o tráfego não ultrapassa 1%?

É um número importante pelo que representa em %.
Em relação ao tráfego, pelo comentado antes, enquanto grandes ISP da região não o oferecerem, os números regionais permanecerao baixos, mas certamente não insignificantes, e sim como detonadores de mudanças.
A nível mundial onúmero de redes com IPv6 (número de ASN) é de quase 30%, segundo as estatísticas de RIPE .
Na América Latina é de 36.34% (2016 de 5548 ASN), em ARIN é de 28.66%, em RIPE 28.31% , em APNIC 30.28% e em AFRINIC: 2.70%.
Portanto, a implementação na região não é tão ruim quanto ao número de ASN, mas é baixo no tráfego em seu conjunto.-

Quais foram as experiências que você ganhou no Fórum da América Latina do IPv6?

Tem sido uma experiência muito boa e reconfortante saber que, embora o número e a qualidade dos trabalhos apresentados durante o FLIP6 tenham sido menores, ainda existem implementações inovadoras que mantiveram o interesse e a necessidade no IPv6.