As operadoras sem IPv6 não vão ter mais mercado

A falta de uso massivo do IPv6 pelas empresas na região preocupa os especialistas.

O engenheiro Tomás Lynch esperava uma maior implementação do IPv6 na América Latina e o Caribe trás o anúncio no ano passado sobre o esgotamento do IPv4 .

Lynch, membro da ISOC e ativo participante das reuniões de LACNOG, garante que as empresas tomaram consciência acerca da necessidade de usar o IPv6, mas “ainda não tem massificado seu uso”.

O especialista salientou que daqui a cinco anos se espera que 50 bilhões de dispositivos usem Internet, mas isso somente é possível mediante o IPv6. Em diálogo com LACNIC News, Lynch advertiu que “em cinco anos as operadoras de rede que não tiverem IPv6 não poderão participar nesse mercado”.

– Como o senhor percebe a implementação do IPv6 na América Latina e o Caribe? O senhor acredita que as empresas e organizações são cientes da importância que tem a incorporação deste protocolo da Internet e a massificação do seu uso?

A implementação do IPv6 na América Latina e o Caribe está lenta. Embora existam casos particulares de países em que as taxas de implementação são comparáveis às dos países europeus, como o Peru com 12%, Equador com 4% e Bolívia com 2%, o resto dos países tem uma percentagem menor a 1%, inclusive com percentagens muito baixas na Argentina, Colômbia, México e Venezuela. Se fizermos uma ponderação com a população dos países, concluímos que o usuário final, em geral, na América Latina e o Caribe ainda não têm IPv6 em seus dispositivos.

Essas percentagens de penetração do IPv6 mostram que os operadores de rede ainda não massificaram seu uso. Mas do outro lado, essas empresas já tomaram consciência sobre a importância do IPv6. Muitas delas já estão planejando a implementação ou analisando sua rede para implementar a nova versão do IP. Lembre-se que a implementação exige não só dar ao usuário final um endereço IPv6, também é necessário adaptar os sistemas de segurança, de charging, etc.

– Se considerarmos o esgotamento do IPv4 no ano passado, o senhor esperava uma maior implementação na região?

Sim, eu esperava que depois do anúncio de LACNIC as empresas começariam a implementar rapidamente o IPv6, em particular as empresas da região. Muitas dessas empresas têm atrasado a implementação usando Carrier Grade NAT (CGNAT), mas para isso fizeram um investimento financeiro significativo que teria sido melhor dedicar à implementação do IPv6.

– A tecnologia 4G está crescendo e isso permite que muitos aplicativos em tempo real possam ser usados desde os celulares. No livro “IPv6 para operadores de rede” o senhor afirma que “sem o IPv6 o risco de não poder continuar prestando serviços aos usuários é muito alto”. Por que o IPv6?

A grande explosão de dispositivos está acontecendo da mão das redes móveis 4G: usuários que querem ou precisam ter acesso sempre, estejam onde estiver, não apenas por motivos de trabalho como ler ou enviar e-mails, mas também como lazer, por exemplo, assistir um vídeo on-line. O número cada vez maior de dispositivos não apenas precisa largura de banda, mas também precisam, pelo menos um endereço IP e centos de portos para os diferentes aplicativos.

Por não implementar IPv6, o número de dispositivos a serem conectados à rede diminui, e se somarmos tecnologias como CGNAT em que através do IPv4 é entregue uma quantidade determinada de portos, teremos uma rede com poucos usuários. Além disso, esses poucos não poderão usar todos os aplicativos ao mesmo tempo ou terão o inconveniente de ter de desligar um aplicativo para poder usar outro.

A conclusão é que a relação entre os aplicativos, que vão de Home Banking a jogos, e o IPv6 é direta devido à grande quantidade de portos que  consomem. Quanto ao suporte do IPv6 nos aplicativos, 85% deles já suportam IPv6. Portanto, os aplicativos não são uma barreira para a implantação do IPv6.

– As diferentes arquiteturas de redes móveis estão desenhadas para suportar o IPv6 ou tem que fazer novos investimentos?

As arquiteturas de redes móveis estão desenhadas segundo os padrões de 3GPP, ITU-T, IETF, entre outros. O 3GPP, em particular, inclui suporte de IPv6 em todos seus documentos desde 1999, inclusive o LTE está desenvolvido com mais foco no IPv6 do que no IPv4. Devido a esses padrões, as empresas que fornecem produtos e serviços para redes móveis já suportam ambas as versões do IP em seus computadores. Novos investimentos vão depender da longevidade dos equipamentos e quando se usam bearers dual-stack ou um bearer por versão IP.

– O que pode acontecer com os operadores de rede se eles não implementarem IPv6 nas suas redes?

O que vai acontecer é que vão ficar por fora do mercado porque vão ter um crescimento cotado pelas tecnologias NAT. Inclusive os investimentos que forem fazer para manter esses sistemas serão maiores dos que eles teriam feito se tivessem implementado o IPv6 em devido tempo.

– Dada a realidade da América Latina e o Caribe, como o senhor convenceria uma operadora -que já tem acesso à Internet IPv4- para que invista dinheiro e recursos para poder chegar desde suas redes locais  a recursos da Internet usando IPv6?

O negócio do IPv6 é ficar no negócio disse Vint Cerf. O investimento em IPv6 que seja feito hoje, quer em equipamentos, horas de desenho, adequação de sistemas, etc., é menor  a longo prazo que investir e posicionar o crescimento da rede com IPv4 e NAT. Dentro de 5 anos se espera que 50 bilhões de dispositivos usem Internet, mas isso somente é possível mediante o IPv6. Em 5 anos os operadores de rede que não tiverem IPv6 não vão ter participação nesse mercado.